O pediatra examinou seu filho e disse que ouviu um sopro no coração. Para muitas famílias, a primeira preocupação é saber se isso significa uma doença e quais exames a criança precisará fazer.
A primeira informação importante é: sopro não é um diagnóstico. É um som produzido pela passagem do sangue pelo coração e percebido pelo médico durante a ausculta.
Na infância, é um achado frequente e, muitas vezes, acontece em um coração sem alterações estruturais. Então, como saber quando é necessário investigar?
Todo sopro no coração precisa de exame?
Não necessariamente. A decisão depende da idade da criança, das características do sopro na ausculta, da presença de sintomas, do exame cardiovascular e da história pessoal e familiar.
O sopro é muito comum na infância. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), entre 50% e 70% das crianças apresentam um sopro em algum momento da infância ou adolescência.
Na maioria das vezes, trata-se de um sopro inocente, sem associação com doença cardíaca.
A SBP explica que o sopro resulta da turbulência do fluxo sanguíneo, que produz vibrações percebidas pelo médico durante a ausculta com o estetoscópio.
Muitos sopros são identificados em consultas de rotina ou ficam mais perceptíveis em situações como febre, anemia e outros quadros que aumentam a velocidade do fluxo sanguíneo.
Quando as características da ausculta ou outros achados deixam dúvida, o eletrocardiograma e o ecocardiograma podem complementar a avaliação.
O que o eletrocardiograma mostra no coração da criança?
O eletrocardiograma infantil registra a atividade elétrica do coração, permitindo avaliar o ritmo, a frequência cardíaca e a condução do estímulo. Na investigação de um sopro, também pode mostrar sinais indiretos de sobrecarga das câmaras cardíacas.
É importante lembrar que o eletrocardiograma da criança tem características próprias em cada fase do crescimento e, por isso, sua interpretação utiliza parâmetros diferentes dos adotados para adultos.
É um exame rápido, indolor e realizado com eletrodos adesivos colocados sobre a pele. Na minha consulta, costumo deixá-lo para o final, quando a criança já está mais familiarizada comigo e com o ambiente.
Algumas crianças ficam receosas com os fios e imaginam que o aparelho possa dar choque. Por isso, explico antes que o eletrocardiograma apenas registra os sinais do coração, sem emitir choque, sem picada e sem dor.
Para que serve o ecocardiograma na investigação do sopro?
O ecocardiograma pediátrico é um ultrassom do coração. Ele permite avaliar seus aspectos anatômicos e funcionais, além do fluxo sanguíneo. Com imagem e em tempo real.
Na investigação de um sopro, pode ajudar a identificar se existe alguma alteração estrutural relacionada ao achado da ausculta, como alterações das valvas ou comunicações entre as cavidades cardíacas.
É um exame indolor e sem radiação, realizado com gel e um transdutor sobre o tórax.
Quando indicado, eu mesma realizo o ecocardiograma e ele pode ser feito no mesmo atendimento da consulta, permitindo integrar a história da criança, o exame cardiovascular e os achados da imagem.
O sopro sempre significa cardiopatia congênita?
Não. Sopro e cardiopatia congênita não são sinônimos. O sopro é um achado da ausculta. Já a cardiopatia congênita é uma alteração na formação do coração presente desde o nascimento.
Muitas crianças apresentam sopro inocente e não têm qualquer alteração estrutural. Em outras, o sopro pode ser justamente o primeiro sinal que leva à investigação e ao diagnóstico de uma cardiopatia.
Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia, cerca de 1 em cada 100 nascidos vivos apresenta alguma cardiopatia congênita, o que reforça a importância do diagnóstico adequado.
Por isso, a presença de um sopro não significa que exista uma doença. A avaliação cardiológica permite entender sua origem, diferenciar um sopro inocente daquele relacionado a uma alteração cardíaca e definir se há necessidade de acompanhamento.
Como é a sequência dos exames na consulta
A avaliação começa antes de qualquer aparelho. Primeiro, converso com a família para entender quando o sopro foi identificado, em que situação isso aconteceu, se já havia sido percebido anteriormente, se a criança apresenta sintomas e se existe algum antecedente pessoal ou familiar importante.
Depois, realizo o exame físico e a ausculta cardiovascular. A partir desses achados, defino se algum exame complementar é necessário. Quando indicados, o ecocardiograma e o eletrocardiograma podem ser realizados no mesmo atendimento.
Nem toda criança precisa fazer os mesmos exames. O objetivo é individualizar a investigação e solicitar aquilo que realmente ajuda a responder à dúvida de cada caso.
Ao final, explico os achados à família e, quando existe alguma alteração, costumo desenhar o coração para mostrar onde ela está e facilitar a compreensão.
Quando procurar o cardiologista pediátrico por causa de um sopro?
Quando um sopro é identificado, algumas características ajudam a definir a necessidade e o momento da avaliação cardiológica.
Merecem atenção especial os sopros identificados no recém-nascido ou nas primeiras semanas de vida, sopros intensos ou com características atípicas e situações acompanhadas de sintomas.
Cansaço ou suor excessivo durante as mamadas, respiração acelerada, dificuldade para ganhar peso, cianose, desmaios e sintomas relacionados ao esforço são alguns sinais que precisam ser considerados.
O histórico familiar de cardiopatias, arritmias ou morte súbita em pessoas jovens também faz parte da avaliação.
Na dúvida, o cardiologista pediátrico pode ajudar a definir se o sopro é inocente ou se existe necessidade de investigação e acompanhamento.