Na consulta ou no pré-natal, a palavra cardiopatia congênita costuma assustar. Antes de qualquer explicação, muitos pais já imaginam o pior.
Mas a pergunta que realmente importa, no início, é mais simples: qual alteração foi encontrada no coração do bebê ou da criança e o que ela representa?
Entender o que é uma cardiopatia congênita é o primeiro passo para substituir parte do medo por informações mais claras. Esse diagnóstico reúne alterações muito diferentes: algumas são discretas e exigem apenas acompanhamento, enquanto outras precisam de cuidados especializados desde os primeiros dias de vida.
O que é cardiopatia congênita?
Cardiopatia congênita é uma alteração na formação ou no funcionamento do coração que se desenvolve durante a gestação e está presente ao nascimento. Existem diferentes tipos, com gravidades e evoluções distintas.
Para entendê-las, ajuda saber que a circulação do bebê funciona de maneira diferente durante a vida fetal, com estruturas próprias dessa fase. Após o nascimento, com o início da respiração, a circulação muda e essas estruturas começam a se fechar. Estima-se que cerca de 20% da população adulta mantenha o forame oval aberto; já a persistência do canal arterial é menos frequente e precisa de mais atenção.
As cardiopatias congênitas surgem quando alguma parte do coração ou dos grandes vasos não se forma como esperado. Elas podem afetar as paredes entre as câmaras cardíacas, as válvulas ou os vasos sanguíneos. Algumas alterações são pequenas e podem melhorar espontaneamente; outras precisam de acompanhamento ou tratamento.
Entre as cardiopatias congênitas mais frequentes estão a comunicação interventricular (CIV), uma abertura entre os ventrículos que pode fechar espontaneamente, e a comunicação interatrial (CIA), uma abertura entre os átrios que pode não causar sintomas ou produzir um sopro evidente nos primeiros anos de vida.
Cardiopatia congênita é o mesmo que sopro no coração?
Não. O sopro no coração é um som percebido pelo médico durante a ausculta, não um diagnóstico.
A palavra sopro costuma ser usada para se referir a qualquer alteração do coração, mas o sopro pode aparecer tanto em crianças sem nenhuma cardiopatia quanto em crianças que têm uma.
Muitos sopros da infância são inocentes ou fisiológicos e acontecem em corações estruturalmente normais. Por outro lado, algumas cardiopatias importantes podem não produzir um sopro facilmente perceptível nos primeiros dias de vida.
O sopro percebido na ausculta do pediatra não confirma nem descarta sozinho uma cardiopatia congênita: ele é apenas um sinal que pode levar à investigação complementar, que costuma incluir o ecocardiograma, para esclarecer se existe alguma alteração na formação do coração daquela criança. O eletrocardiograma também pode ser realizado em situações específicas para analisar o ritmo cardíaco, a condução elétrica e sinais indiretos de sobrecarga das câmaras, mas não substitui o ecocardiograma na avaliação anatômica.
Por que o diagnóstico precoce da cardiopatia congênita importa?
Quando a cardiopatia é identificada de maneira precoce, muitas vezes ainda na gestação por meio do ecocardiograma fetal, é possível planejar o acompanhamento, orientar a família com calma e organizar o parto e os primeiros cuidados do bebê.
Nas cardiopatias mais complexas, o diagnóstico durante a gestação pode ajudar a definir o local mais adequado para o nascimento, a necessidade de uma equipe especializada e os cuidados que deverão ser iniciados logo após o parto. Nos quadros de menor repercussão, permite acompanhar a evolução de forma organizada, sem antecipar intervenções desnecessárias.
A Sociedade Brasileira de Cardiologia destaca que o diagnóstico e o tratamento precoces são essenciais para o cuidado das cardiopatias congênitas, porque muitas condutas dependem diretamente de quando a alteração é identificada.
Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, cerca de 1 em cada 100 crianças nasce com algum tipo de cardiopatia congênita, o que reforça a importância de conhecer os sinais e manter as etapas de rastreamento e acompanhamento recomendadas.
Mesmo assim, nem todas as cardiopatias são identificadas durante a gestação ou logo após o nascimento. Algumas alterações discretas podem ser percebidas apenas mais tarde, em uma consulta de rotina, após o aparecimento de sintomas ou durante a investigação de um sopro.
Quais sinais merecem investigação de cardiopatia congênita?
Cianose (lábios ou extremidades arroxeados), respiração acelerada, cansaço ou suor excessivo durante as mamadas, pausas frequentes para mamar, dificuldade para ganhar peso ou um sopro identificado no exame de rotina são sinais que merecem avaliação cardiológica.
Nas crianças maiores, cansaço desproporcional, falta de ar fora do habitual, dor no peito ou desmaio durante o esforço e redução da disposição para brincar ou praticar atividades físicas também precisam ser avaliados.
O histórico familiar de cardiopatia congênita, doenças cardíacas hereditárias ou morte súbita em pessoas jovens também é considerado na consulta.
Nem todo sinal significa cardiopatia congênita. A avaliação clínica, com exame físico e, quando indicado, exames complementares, principalmente o ecocardiograma quando existe suspeita de alteração estrutural, ajuda a esclarecer cada caso.
Nos recém-nascidos, o teste do coraçãozinho faz parte da triagem das cardiopatias congênitas críticas. Entretanto, um resultado normal não exclui todos os tipos de cardiopatia e não substitui o exame físico ou a investigação de sinais clínicos.