A criança quer entrar para o time da escola, começar a nadar com mais frequência ou experimentar uma modalidade nova, e o clube ou a instituição pede um atestado médico para a prática esportiva.
Para muitos pais, a primeira dúvida é o que esse exame observa. A avaliação cardiológica para atividade física não é uma formalidade: seu objetivo é identificar sinais e sintomas, antecedentes pessoais e familiares e achados no exame físico que precisem ser esclarecidos antes da liberação para atividades de esforço.
Nenhuma avaliação elimina completamente o risco de um evento durante o exercício. Ainda assim, uma investigação bem conduzida ajuda a reconhecer condições que possam exigir exames complementares, acompanhamento ou orientações específicas para uma prática mais segura.
Toda criança precisa de avaliação cardiológica para praticar esporte?
Nem toda criança precisa ser avaliada por um cardiologista pediátrico. Entretanto, antes de iniciar uma prática esportiva organizada ou competitiva, é importante que ela passe por uma avaliação médica que considere a saúde de maneira global.
A avaliação cardiológica se torna especialmente relevante nestas situações:
- sintomas durante ou logo após o esforço;
- alterações percebidas no exame físico;
- sopro com características que gerem dúvida;
- cardiopatia ou outra condição cardiovascular já conhecida;
- histórico familiar cardiovascular relevante;
- alteração em exame anterior;
- prática esportiva competitiva de maior intensidade;
- solicitação do pediatra, da escola, do clube ou da federação esportiva.
Na ausência dessas situações, o acompanhamento pediátrico habitual pode ser suficiente para a liberação. O pediatra poderá indicar uma avaliação cardiológica sempre que encontrar algum elemento que mereça investigação.
O que a avaliação cardiológica para atividade física observa?
A avaliação começa pela conversa com a criança e sua família. Procuro saber se ela já apresentou sintomas durante o esforço, como dor no peito, falta de ar desproporcional, palpitação ou desmaio.
A história familiar tem grande importância. Investigo casos de morte súbita ou inexplicada em pessoas jovens, cardiomiopatias, arritmias hereditárias, doenças da aorta, uso de marca-passo ou desfibrilador em idade precoce e outras doenças cardiovasculares que possam ter caráter familiar.
Depois, realizo o exame físico com atenção especial ao sistema cardiovascular, incluindo a avaliação da frequência cardíaca, da saturação de oxigênio e da pressão arterial. A partir dessas informações, defino se existe necessidade de complementar a investigação com exames como o eletrocardiograma, o ecocardiograma e o teste de esforço.
A avaliação cardiológica para atividade física não garante que a criança nunca apresentará um problema durante o esporte. Seu papel é reconhecer fatores que ajudem a reduzir esses riscos e identificar sinais que precisam ser investigados antes da liberação.
Um sopro no coração impede a prática de esportes?
Na maioria das vezes, não. Um sopro inocente, ou fisiológico, comum na infância, não impede a atividade física.
A avaliação cardiológica ajuda a diferenciar esse achado de um sopro relacionado a uma alteração estrutural do coração.
Quando há dúvida sobre a origem do sopro, o eletrocardiograma e o ecocardiograma ajudam a esclarecer se há necessidade de acompanhamento antes de liberar a prática esportiva.
Quais sinais durante o esporte merecem atenção imediata?
Alguns sintomas indicam que a criança deve interromper a atividade e passar por avaliação médica antes de retomar a prática com segurança:
- dor no peito durante o esforço;
- desmaio ou sensação de quase desmaio durante o exercício;
- palpitações acompanhadas de tontura, dor, falta de ar ou mal-estar;
- falta de ar ou cansaço muito maiores do que o esperado;
- queda inexplicada de rendimento;
- coloração arroxeada nos lábios ou na pele.
Também merece atenção o histórico familiar de morte súbita ou inexplicada antes dos 50 anos, cardiomiopatia, arritmia hereditária ou outra doença cardíaca potencialmente familiar.
Esses sinais não confirmam, isoladamente, uma cardiopatia, mas precisam ser esclarecidos antes da continuidade do esporte. Desmaio durante o exercício, dor intensa no peito, falta de ar importante, cianose ou sintomas persistentes exigem avaliação médica imediata.
A avaliação inclui eletrocardiograma e ecocardiograma?
Depende de cada caso. A base da avaliação é formada pela história clínica e familiar, pelo exame físico e pela medida da pressão arterial.
O eletrocardiograma pode ser indicado conforme a idade, o tipo de prática esportiva, os sintomas, os antecedentes e os achados da consulta. A inclusão rotineira desse exame em todos os jovens atletas varia entre as recomendações internacionais; por isso, sua necessidade deve ser analisada individualmente.
O ecocardiograma não é um exame obrigatório para liberar todas as crianças. Ele é solicitado quando existe suspeita de alteração estrutural, sopro que precise ser esclarecido, cardiopatia conhecida, história familiar relevante ou outra indicação clínica.
Quando esses exames são necessários, eu mesma realizo o eletrocardiograma e o ecocardiograma, que podem ser feitos no mesmo atendimento da consulta. Isso permite relacionar os resultados aos sintomas e aos achados do exame físico, agilizar a investigação e reduzir a necessidade de diferentes deslocamentos e agendamentos.
A atividade física regular, associada a alimentação equilibrada, sono adequado e outros hábitos saudáveis, é parte importante da saúde cardiovascular durante a infância e ao longo da vida.